... Tomou tacacá,
ficou... Não são poucos militares das bandas do sul que foram servir em Belém,
por castigo! -- Por castigo? – Sim, por castigo. Belém, pelo menos antigamente
era assim! Quem era “escalado” para lá servir, alguma coisa de errado havia
feito... Alguns até diziam, como gozação, eu acho - que quem gosta de mato é
veado, e quem gosta de norte é agulha magnética... (Cuidado! – não confundir
com esses viados do Kit-Gay do prefeito... rsr.) Mas acabaram ficando por lá,
depois que descobriram as delícias das comidas paraenses. E, por que não dizer?
- das meninas de lá... -- Casaram com morenas paraenses e se deram muito bem. E
nunca mais quiseram sair da lá, da minha doce cidade morena...
Peço licença para continuar falando de uma
figura folclórica na Força Aérea Brasileira! O Brigadeiro Camarão, hoje voando
entre as estrelas nos céus... Servimos juntos na EPC do AR, quando eu era
Tenente. O Camarão costumava passar noites inteiras trabalhando sozinho, no seu
gabinete. Mas não exigia que ninguém o acompanhasse nas suas longas noites mal
dormidas... Os dias eram curtos demais para o muito que queria fazer... Foi ele
quem fez as grandes melhorias; os novos alojamentos, mais modernos e
confortáveis. Laboratório de línguas (ele falava e escrevia fluentemente o
grego, além de francês e inglês...). Enfim, tudo o que de bom e moderno existe
hoje na nossa Escola Preparatória de Cadetes do Ar.
Naqueles idos de 65,
66,67, isto é, “em plena ditadura”, que tempo bom! Eu era um tenente solteirão,
livre e desimpedido... rsrsr. Às vezes o
Camarão me chamava para conversar após o expediente. Ainda mais depois que ficou sabendo que eu
era paraense; e paraense da gema! Ele era um apaixonado pela Amazônia. Naqueles
bons tempos, eu lhe dizia que eu só me tornei oficial da FAB porque fui para o
Rio terminar a quarta série ginasial, quando também frequentei um cursinho
preparatório, lá em Cascadura. Estudava direto e sem descanso... Era o ano de
1956. Dizia-lhe eu: -- Brigadeiro, não tivesse sido assim, eu estaria até hoje
empinando papagaio, jogando peteca, pegando pião na unha, jogando peladas nas
ruas de Belém, minha doce cidade morena. Naquela época ninguém sabia informar
direito, em Belém, como ingressar na FAB. Foi quando ele ficou pensando,
pensando; olhando-me com aquele seu olhar inteligente e perguntou se eu
“topava” pegar um T-6 ir fazer propaganda da Escola pela Amazônia; aceitei na
hora! -- Ainda mais quando ele disse que podia demorar o tempo que eu achasse
necessário...
Decolei com o meu T-6
abarrotado com tudo o que havia sobre a EPC. Fui à São Luís, Belém, Santarém,
Manaus até Tabatinga, divulgando o máximo possível a Escola. Os pilotos meus
conhecidos da FAB, que serviam em Belém, acostumados a voar em aviões maiores e
mais bem equipados, ficavam admirados como eu me atrevia a voar, num avião
monomotor, em rotas tão longas e “perigosas”... Eu só fazia rir... Antes do
pousar, eu dava alguns “rasantes”, fazia algumas acrobacias, como para “avisar”
que eu estava chegando... Nos ginásios, nos auditórios, escolas públicas,
escolas particulares, até durante uma missa em Santarém, durante um sermão
feito por um padre amigo meu, lá estava eu fazendo propaganda da Escola. Dizia
às “crianças” que me ouviam e que perguntavam “se era eu quem havia dado
aqueles rasantes” que -- para compensar a falta de cursos preparatórios na
Amazônia, o Comandante da Escola resolvera também colocar no concurso daquele
ano o “Teste de Inteligência”, que era tão ou mais importante que o português e
matemática exigidos no concurso; estas matérias, entre outras, dizia-lhes eu,
eles iriam realmente aprender em Barbacena...
O meu empenho foi
tanto, que o jornal “O Liberal” de Belém publicou na primeira página, com
evidente exagero é claro, que: -- Oficial-Aviador-Paraense não quer mais saber
de paulistas, cariocas ou gaúchos na EPC... Só paraenses! -- Levei o jornal
para o Brigadeiro ler... Ele quase morreu de rir!
Mas valeu a pena. No
ano seguinte o Camarão me chamou para comemorar a grande quantidade de jovens
paraenses, maranhenses, amazonenses que ingressaram na EPC. -- Muito bem, “Fura
Bolo” (era assim que ele me chamava, pois eu cumpria qualquer missão, com
qualquer tempo...) -- Nunca tantos “Amazônidas” como este ano... Muito
obrigado!
Grande Brigadeiro
Camarão...
Coronel Maciel.